Praia do Canto: o bairro que foi desenhado antes de existir
Saturnino de Brito riscou estas ruas em 1896, quando aqui não havia nada além de praia. Cento e trinta anos depois, é o metro quadrado mais disputado do Espírito Santo.
Começar a leituraA Praia do Canto é hoje o endereço mais desejado de Vitória, e a explicação que se ouve costuma parar em "localização". Só que localização, aqui, não é acaso: é um projeto de 1896 que a cidade levou um século para ocupar.
O que segue é a história do bairro contada pelo acervo — as praias que existiam onde hoje há avenida, o bonde que corria na areia, os primeiros prédios — cruzada com o que o Renato Avelar escreve nas colunas dele sobre por que este pedaço de cidade vale o que vale.
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Textos de Renato Avelar, publicados em A Gazeta e hospedados aqui na íntegra, mais o nosso acervo fotográfico.
Um bairro riscado no papel antes de existir
Vitória tinha um problema no fim do século XIX: era uma ilha apertada entre o mar e o maciço, sem para onde crescer, e com problemas sérios de saneamento. Entre 1893 e 1896, no governo de Moniz Freire, o engenheiro Saturnino de Brito desenhou a resposta — o Projecto de um Novo Arrabalde, uma expansão planejada cinco a seis vezes maior que a cidade de então.
O plano não era um loteamento. Era saneamento, drenagem, avenidas em triângulo e quadras desenhadas para uma cidade que ainda não tinha gente para ocupá-las. Quando Saturnino riscou este bairro, Vitória tinha menos de 15 mil habitantes e toda a vida econômica cabia no Centro.
Por isso o Novo Arrabalde passou décadas sendo mais um mapa do futuro do que um bairro. A ocupação veio devagar, geração após geração — e é dessa lentidão que vêm as ruas largas e a arborização que hoje se elogia sem saber a quem agradecer.



Quando a praia chegava até a rua
Antes do aterro, a orla era o que o nome dizia: praia. A Praia Comprida, a de Santa Helena e a do Canto ocupavam a faixa onde hoje passam carros. A Avenida Saturnino de Brito era chão batido à beira d'água, com casas de veraneio de um lado e areia do outro.
O bonde corria colado no mar. Nos cartões-postais da época a cena é sempre a mesma: barcos encalhados na areia, banhistas, e a avenida que ainda não era avenida.



Endereço de veraneio
Enquanto o Centro concentrava trabalho, repartição e comércio, este lado da ilha era para onde a cidade vinha descansar. Casarões isolados na ponta, barcos fundeados, e um silêncio que hoje custaria caro.
A Ponta Formosa é o retrato dessa fase: uma casa sozinha sobre a pedra, cercada de mata e de água. O mesmo recorte de costa que hoje é um dos endereços mais caros do Estado.

Quatro ou cinco prédios
Nos anos 1960, quem saía de casa para morar em apartamento de luxo em Vitória ia para o Centro, para a região da Catedral. Aqui havia poucos prédios grandes: o Santa Luzia é de 1967, o Portinari de 1969, o Comodoro de 1974. Enquanto isso, o Centro tinha dezenas de edifícios em obra ao mesmo tempo.
A inversão levaria pouco mais de uma década. Quando o comércio e a vida social começaram a migrar para cá, o ciclo do Centro — que durou menos de vinte anos — já estava se fechando.

A areia vira avenida
Entre 1970 e 1980 os aterros mudaram a linha da costa. Sumiram as praias Comprida, Santa Helena, do Canto e do Suá; as ilhas do Boi e do Frade viraram continente. A cidade ganhou terreno plano onde havia água — e é sobre esse terreno que estão hoje alguns dos endereços mais valorizados do Espírito Santo.
É a mesma decisão vista de dois ângulos. O que se ganhou está no preço; o que se perdeu está nestas fotografias, e em nenhum outro lugar.


A esquina que mudou tudo
Há uma esquina na Praia do Canto que o Renato conhece de cor: banca de revistas, cafezinho, e uma padaria que, nas palavras dele, "tinha que melhorar muito para ser considerada ruim". Quando uma rede de supermercados comprou o ponto, a cidade inteira fez a mesma pergunta: e o estacionamento?
O estacionamento não ficou. O supermercado abriu sem ele — e o fluxo foi imediato. As pessoas passaram a fazer compras menores e mais frequentes, a pé, vindas de casa. Ir ao mercado deixou de ser tarefa logística e virou passeio. Nos corredores, os vizinhos voltaram a se encontrar.
Isso tem nome: acupuntura urbana. Uma intervenção pequena no tecido da cidade que ativa energia adormecida, muda rotas e cria hábitos. A Praia do Canto é o laboratório mais rico disso em Vitória — porque é compacta, porque tudo está a uma caminhada, porque tem arborização rara, a Praça dos Namorados, a feira de quinta, a Guarderia e a praia. Aqui localização não é argumento de venda: é experiência cotidiana.

Por que custa o que custa
Vitória lança pouco porque tem pouco território: é uma ilha, com boa parte da área ocupada pelo Maciço Central, e seu projeto de expansão foi concebido em 1896. A cidade cresceu, ocupou seus espaços e hoje quase não encontra terreno.
À escassez física soma-se a limitação construtiva. Enquanto certas regiões do país permitem construir sete, oito ou mais de dez vezes a área do terreno, na Praia do Canto o coeficiente gira em torno de 2,8 — mais afastamentos, restrições de altura e outras exigências. Aqui é comum ter de comprar e demolir um edifício antigo de três pavimentos para construir outro: reunir proprietários, enfrentar inventários, documentação, negociação. O terreno deixa de ser terreno e vira operação.
Chamar isso de bolha é fugir da conta. Bolha pressupõe preço sem sustentação; aqui há pouca oferta, quase nenhum estoque, custo de produção crescente e demanda firme. É a lei de oferta e procura que Adam Smith explicou há quase três séculos: um copo d'água à margem do rio não vale nada, e no deserto pode valer uma fortuna. A água é a mesma. O que muda é a escassez.

O que vem: o Canal de Camburi
O ponto final da Praia do Canto é o Canal de Camburi — área tratada por muito tempo como margem degradada, fundo de quintal urbano. Agora recebe a maior obra de turismo já feita no Estado: R$ 219,9 milhões e cerca de 3,3 km de orla sobre a água, com marina, atracadouros, ciclovias, restaurantes e passarelas ligando a Praia do Canto ao Pontal de Camburi.
A pergunta que se repete é a mesma da esquina: o que vai acontecer por ali? A aposta do Renato é direta — todos irão se surpreender, porque a cidade já está pronta. A acupuntura urbana não cria do nada: revela o que já existe e ainda não encontrou o gatilho.

O que está à venda na Praia do Canto
Há imóveis à venda da Häuser na Praia do Canto. Três deles:
Na Praia do Canto, localização não é argumento de venda. É experiência cotidiana.
Sobre este texto
Esta leitura foi escrita a partir da caminhada gravada no episódio — não é a transcrição automática, que troca nome próprio e não tem parágrafo. As datas e os nomes históricos foram conferidos nas fontes ao lado antes de virar texto.
- O coeficiente construtivo de cerca de 2,8 e a comparação com outras praças são os citados pelo Renato Avelar na coluna de agosto de 2026 em A Gazeta. Índice urbanístico muda por zona e por revisão do plano diretor: para um caso concreto, vale consultar a legislação vigente.
- A leitura sobre a esquina do supermercado e sobre a acupuntura urbana é dele, na coluna de março de 2026, e está aqui resumida — o texto inteiro fica a um clique.
Fontes
- Arquivo Público do ES — "Projecto de um Novo Arrabalde" (1896), fac-símile
- Atlas Urbanístico de Vitória — o plano de 1896
- Prefeitura de Vitória (SEDEC) — "Aterros reconfiguram tecido urbano na década de 70"
- Prefeitura de Vitória — orla do Canal de Camburi: R$ 219,9 milhões e 3,3 km sobre a água
As fotografias
As imagens vêm do acervo histórico reunido pela Häuser. Onde havia barra de título, marca de colorização ou crédito de terceiro impressos no quadro, a barra foi recortada e o crédito voltou como texto na legenda de cada foto.





