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Toda cidade revela, com o tempo, a inteligência de quem a desenhou

Alguns lugares envelhecem bem porque foram pensados para a vida real: a caminhada, a sombra, a esquina, o comércio, o encontro. Outros impressionam de longe e falham quando você desce do carro.

Häuser Curadoria · publicado no Instagram @remaxhauser, junho de 2026

Toda cidade revela, com o tempo, a inteligência — ou a falta dela — em quem a desenhou. Alguns lugares envelhecem bem porque foram pensados para a vida real: a caminhada, a sombra, a esquina, o comércio, o encontro. Outros até impressionam de longe, mas falham quando você desce do carro e tenta viver a cidade no corpo.

A Barra da Tijuca é o exemplo que condena: um cenário de filme distópico, daqueles em que a humanidade sobreviveu mas esqueceu de perguntar para quê. Torres cinzas soltas, sem calçada decente, sem árvore, sem diálogo com o pedestre. Barcelona é o que salva: respira um plano urbano desenhado em 1859 por Ildefons Cerdà, o engenheiro catalão que inventou a palavra urbanização e, antes de rabiscar uma linha, foi a campo estudar as condições de vida dos trabalhadores. Quadras octogonais, esquinas chanfradas, ruas largas, pátios internos ajardinados. Luz, verde e ventilação para todos, ricos e pobres no mesmo modelo, sem rua de primeira. Cerdà morreu endividado; a cidade que ele desenhou virou uma das mais visitadas do planeta. Alguém fez as contas erradas.

Vitória não chegou onde chegou por acaso. Chegou porque, em diferentes momentos, alguém parou, olhou para o território e perguntou: essa cidade existe para quem?

Mas vamos parar de olhar só para o Rio e para a Europa. Quais bairros daqui foram desenhados para gerar vida, e quais ainda estão tentando descobrir essa vocação? É aí que a história fica interessante, porque o Espírito Santo tem sua própria galeria de urbanistas, engenheiros e gestores que moldaram a cidade antes mesmo que muita gente percebesse o valor disso.

Tudo começa em 1896, com Saturnino de Brito, o engenheiro que desenhou a base do tabuleiro sobre a qual todos jogam até hoje: o sistema de saneamento, a drenagem, o traçado que deu à Grande Vitória a sua espinha dorsal. Sem Saturnino, não existe conversa. Depois veio o governador Christiano Dias Lopes, com a ousadia de quem enxerga antes — foi ele quem desenvolveu Bento Ferreira, que para mim é uma das bolas da vez: um bairro crescendo com personalidade, identidade, mistura, algo raro em tempos de condomínio clonado. Jardim da Penha, projetado por Creso Euclides, é onde o jogo muda completamente de patamar: comércio de rua, feira, botequim, costureira, e um número de salões de beleza que faria qualquer pesquisador de mercado chorar de inveja. A vida acontece na calçada, no olho no olho, no cafezinho que a vizinha oferece antes de você perguntar. E Jolindo Martins concebeu a Enseada do Suá, o bairro que hoje se transforma em polo residencial, com condomínios de alto padrão olhando para o mar, abrigo do Cais das Artes, da Praça do Papa, do Projeto Tamar e do Hortomercado — um bairro institucional, e não há demérito nisso. Mas falta vida de rua: à noite, o bairro recolhe, as avenidas se esvaziam e o pedestre que se aventure.

Saturnino deu base. Christiano abriu caminhos. Creso criou um bairro vivo. Jolindo desenhou uma das áreas com maior potencial urbano de Vitória. Vitória não chegou onde chegou por acaso. Chegou porque, em diferentes momentos, alguém parou, olhou para o território e perguntou: essa cidade existe para quem? Cerdà fez isso em 1859. Saturnino fez em 1896. Christiano e Creso fizeram. A Enseada ainda está construindo sua resposta. E a Barra da Tijuca? A Barra segue esperando alguém fazer a pergunta certa.

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