O que Vitória e Amsterdam têm em comum?
Na Holanda, 84% da população usa bicicleta todo dia: 23 milhões de bikes para 18 milhões de habitantes. Só que não foi sempre assim.
Coluna em A Gazeta · publicado no Instagram @remaxhauser, julho de 2026

Vitória está acelerando: Cais das Artes, Canal de Camburi, ciclovias, orla. A cidade está mudando muito. O comportamento, ainda não.
O que Amsterdam tem a ver com isso? Na Holanda, tudo funciona. O pedestre respeita o ciclista, o motorista para na faixa, quem pedala sinaliza antes de virar. É uma coreografia. Parece ensaiada. É cultura. Só que não foi sempre assim: na década de 1970, a Holanda tinha um dos piores trânsitos da Europa, e a população foi às ruas com um movimento chamado "Stop de Kindermoord" — "parem com o assassinato de crianças", numa tradução livre. Só mudou quando pressionaram o governo, mudaram o planejamento urbano, reformularam as ruas e, ao longo de décadas, mudaram a cabeça das pessoas. O urbanismo veio primeiro. A urbanização, no sentido humano da palavra, veio depois. E demorou.
A Holanda levou 30 anos para transformar a cabeça das pessoas. A gente não precisa de 30. Mas precisa começar agora.
Vitória ainda não chegou lá. Está recebendo urbanismo de primeira linha: intervenções sérias, projetos assinados, infraestrutura que envergonha cidades maiores. Mas a gente ainda não virou urbano de verdade. E não estou falando de morar na cidade. Estou falando de cidadania. De convivência. De respeito ao espaço do outro.
Então o que vem primeiro, o urbanismo ou a urbanização? É uma das perguntas mais honestas que uma cidade em transformação pode se fazer. A infraestrutura convida ao comportamento. Mas o comportamento precisa ser cultivado — com educação, sinalização, fiscalização e, principalmente, orientação e regras.
Vitória tem uma janela rara. Uma janela que cidades como Rio de Janeiro e São Paulo já perderam, ou tornaram impossível de abrir: ainda é possível construir uma cultura de mobilidade antes que o caos vire identidade. A Holanda levou 30 anos para transformar a cabeça das pessoas. A gente não precisa de 30. Mas precisa começar agora.





