Enseada do Suá: o bairro que a cidade fabricou
Aqui era mar. Virou areal, depois deserto de prédio comercial, e hoje é o coração financeiro do Espírito Santo — com o comércio e a moradia trocando de lado.
▶ Assistir ao episódioDe todos os bairros de Vitória, a Enseada do Suá é o mais recente e o mais literal: quase todo ele está sobre terreno que não existia. Onde hoje ficam a Praça do Papa, o Cais das Artes e as torres do centro financeiro, havia água.
Este é o episódio que marca a volta do Rolê Imobiliário, doze anos e noventa programas depois da estreia. A caminhada é pela Enseada, e a história começa antes do bairro — na praia de pescadores que o aterro cobriu.
Antes, era uma praia de pescadores
A Praia do Suá era isso: uma faixa de areia ao pé do morro, com barcos encalhados, casas baixas e a vila de pescadores que deu nome ao lugar. O Morro do Suá ficava praticamente solto sobre a água, e a linha da costa passava onde hoje há avenida.
Nos cartões-postais dos anos 1920 e 1940 a cena se repete: mar, canoa, morro. Nada do que está lá hoje aparece — porque nada do que está lá hoje existia.



A cidade fabrica terra
Entre 1970 e 1980 os aterros redesenharam a baía. Sumiram as praias Comprida, Santa Helena, do Canto e do Suá; as ilhas do Boi e do Frade viraram continente. O contrato do aterro da Enseada do Suá foi assinado em 1972 e concluído em 1978.
O bairro começou pelo lado de baixo, embaixo de onde viria a Terceira Ponte, com residências e casas. Do outro lado — o lado que hoje concentra as torres — era, nas palavras do episódio, um imenso areal.

A ponte muda a escala
A Terceira Ponte foi idealizada em 1973 e inaugurada em agosto de 1989. Nas fotos do aterro da Comdusa, de 1980, os pilares ainda estão saindo da água ao lado de um terreno que era pura terra batida.
A ponte não ligou só a ilha a Vila Velha: ela pôs a Enseada no caminho de todo mundo. O bairro que era o fim da cidade virou passagem obrigatória — e passagem obrigatória, no mercado imobiliário, é outro preço.


Um bairro sem rua, só avenida
Quem desenhou a Enseada do Suá foi Jolindo Martins Filho, nos anos 1970. O traçado é diferente de tudo que existe em Vitória: quadras grandes, avenidas largas, e praticamente nenhuma rua — o que dá ao bairro uma escala que lembra mais São Paulo do que a ilha.
A vocação inicial era residencial. Foi o que não aconteceu: o primeiro prédio residencial, o Santa Helena Special Flat, projeto da Encol, tinha duas torres previstas e só uma saiu do papel. A segunda foi abortada porque a demanda residencial não veio. Era um deserto.

O deserto vira coração financeiro
Em outubro de 1987 foi entregue o Palácio do Café, com seu elevador panorâmico — até hoje um prédio icônico do bairro. A partir dele a ocupação virou comercial: Centro Empresarial da Praia, Arábica, Condilon, Centro Empresarial Enseada, Palácio da Praia, Palácio da Enseada.
O Renato abriu escritório aqui em 1994, no Centro Empresarial da Praia, e a memória dele é a de um lugar vazio: um dia voltou ao carro e tinham trocado o toca-fita por um tijolo, com o vidro quebrado. Era esse o bairro.
Em 2007 chegaram as grandes incorporadoras nacionais e vieram o Vitória Bay, o Celebrity, o Grand Park. Depois, a mudança do plano diretor virou o jogo de novo: deixou de ser interessante construir comercial de um lado, e o que era residencial do outro passou a poder receber comércio. O comercial veio para cá, o residencial foi para lá.

Híbrido, e por isso vivo
Hoje a característica do bairro é a mistura: um residencial, um hotel, um prédio comercial, outro residencial. É o coração financeiro e administrativo do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, um lugar onde se circula a pé pela Praça do Papa com a sensação de sossego.
O que mudou o passo foi a moradia. Quando o morador chega, a rua ganha vida noturna, comércio e o que o episódio chama de humanismo — gente circulando. É o caminho que Leblon e Copacabana fizeram, guardadas as proporções, e que aqui está acontecendo agora: os prédios residenciais novos vêm com loja embaixo, por ganho de plano diretor.
E há o Cais das Artes, projeto do capixaba Paulo Mendes da Rocha, ganhador do Pritzker — o Nobel da arquitetura. Pronto depois de décadas, ele ressignifica a área inteira. A aposta declarada no episódio é o efeito Bilbao: um edifício cultural que muda o valor de tudo em volta.

O que está para alugar na Enseada do Suá
Há imóveis para alugar da Häuser na Enseada do Suá. Três deles:
Onde hoje há praça, museu e torre, havia mar. A Enseada é a prova de que uma cidade também se fabrica.
Sobre este texto
Esta leitura foi escrita a partir da caminhada gravada no episódio — não é a transcrição automática, que troca nome próprio e não tem parágrafo. As datas e os nomes históricos foram conferidos nas fontes ao lado antes de virar texto.
- No episódio, o prêmio de Paulo Mendes da Rocha é citado como Pulitzer. O prêmio é o Pritzker — o texto acima corrige.
- As datas do Palácio do Café (outubro de 1987), a autoria do desenho do bairro por Jolindo Martins Filho e a história das duas torres do Santa Helena Special Flat são as contadas por Renato Avelar durante a gravação, de memória. Não foram confirmadas em fonte documental.
- Os valores de metro quadrado citados na caminhada são de agosto de 2026 e serviam à negociação daquele imóvel. Não são tabela de preço do bairro.
Fontes
- Prefeitura de Vitória (SEDEC) — "Aterros reconfiguram tecido urbano na década de 70"
- Capixaba da Gema — "Enseada do Suá: o bairro de Vitória criado sobre o mar"
- A Gazeta — "Pontes de Vitória contam a história da conexão da ilha ao continente"
- Governo do ES — entrega do Museu do Cais das Artes, projeto de Paulo Mendes da Rocha
As fotografias
As imagens vêm do acervo histórico reunido pela Häuser. Onde havia barra de título, marca de colorização ou crédito de terceiro impressos no quadro, a barra foi recortada e o crédito voltou como texto na legenda de cada foto.






